Tudo tem um começo e um fim. O incrível dos começos e dos fins está sempre presente no entre. É o entre que estará escrito em BestSeller, the only. Diferente de diário, escolho “livro pessoal” porque permite flexibilidade para escrever conforme minha vivência e sem compromisso com o tempo. (Ah, o Sr. Tempo! Sempre atual.) “BestSeller” é o elixir com o qual quero continuar minha jornada pessoal.

É possível que alguns amigos tenham recebido algumas palavras que escrevo neste espaço. Eles sabem o que receberam de mim.

domingo, abril 17

Chamado à vida!

Por mais que alguns acontecimentos tenham ocorrido há anos, a capacidade que o ser humano possui para recordar determinadas situações é admirável.

Quando meu pai adoeceu e começou a definhar a olhos vistos, todos em casa, também murchamos. Enquanto não descobríamos o quê o estava levando embora, acreditávamos que tudo estava bem e que em breve ele se recuperaria. Muitos exames foram realizados e nenhum acusou a neoplasia no esôfago.

Meu pai era muito na dele. Não reclamava ou se fazia de vítima. Conforme a doença o consumia mais calado ele se mantinha. Com certeza sabia o que lhe estava acontecendo e não queria transtornar a vida das pessoas que amava.

Lembro que nas visitas diárias ao hospital sempre me dizia para continuar minha vida e parar de ir visitá-lo. Eu ficava ensandecida a respeito da segunda parte e brincava dizendo que "esta parte do contrato" eu não cumpriria. Fui ao hospital todos os dias que lá esteve e fazia-lhe massagens nos pés e segurava sua mão por longos momentos. Ambos em silêncio. Ele calado por estar isolado e se despedindo da vida e eu apenas olhando-o e orando para que saísse dali e reagisse logo.

Os dias passavam e ele só piorava. Não ser portadora da cura da doença do meu pai me fazia sentir impotente e inútil e no dia a dia me consumia. Queria encontrar um jeito de mantê-lo comigo. Egoisticamente comigo. Não queria que fosse embora do meu mundo. Nestes momentos, o que não conseguia enxergar era que a doença dele estava totalmente fora dos meus quereres. Nada que eu pudesse fazer ou querer o manteria ao meu lado.

Chegou o dia que antecedeu a morte de papai. Chorei incontrolavelmente. Sem freios. Derramei furiosas lágrimas. Meu coração doía doía doía. Fiquei completamente exausta. Não queria aceitar aquele fado.

Papai sempre foi e é e sempre será meu herói*. Aprendizado 9: é uma honra ter sido digna de co-participar da vida de pessoas que não mais se fazem presentes.

Após horas de tristeza e desespero e sofrimento, caí em mim e me dei conta de que não tinha como reverter àquela situação. Que a morte de papai era iminente. No segundo seguinte a esta constatação senti-me tão em paz. Foi um bálsamo derramado por todo meu ser. Minha alma se aquietou de tal maneira que pude receber a notícia da morte dele, horas depois, com serenidade.

Sempre me lembro de papai. Ele foi uma pessoa que contribuiu significativamente com meu crescimento em todos os sentidos e formas e etapas até onde lhe foi possível estar presente.


* Pai, Fábio Jr.: http://youtu.be/S900uKF_3Lg

Pai _ Fábio Jr. (1979)

segunda-feira, abril 4

CCC - Carta de Comprometimento Comigo

Trinta de março de 2011. Concluído. Terminou. Findo. Acabou-se!
As palavras aqui escritas são a alforria do meu passado.
Pensar no futuro sempre me remete à morte. Longe de ser um pensamento mórbido ou depressivo, considero apenas uma concreta reflexão. A verdade a respeito do que esperar da posteridade aponta-me o fim físico e intelectual. Sons internos e cheiros emitidos e desprendidos do corpo que não mais se farão presentes. Toques e olhares que serão saudosos apenas para as pessoas que compartilharam de encontros marcados ou casuais. Pensamentos e ideias que foram discutidos em botequins, festas, viagens, motéis, praias, trabalhos, que serão recordados nas mentes e pelas bocas das pessoas que tiveram a oportunidade de ouvi-las ou lê-las.
Ser consciente de que o fim se dará facilita minha compreensão a exigir-me mais prontidão nas minhas ações. A vida pode se findar a qualquer momento. Como posso significar minha existência?
Acredito que minha vida é mais que nascer e viver e morrer. Para que minha filosofia caminhe junto com minha realidade me comprometo a tomar atitudes de ordem prática a partir de agora. Meu compromisso é ser humana comigo e com os seres vivos. Que possamos evoluir continuamente e que esta corrente de transformação se propague no planeta Terra.
Há da minha parte a necessidade de manter o foco e ser dedicada, ousada, corajosa, desapegada, perseverante, íntegra, verdadeira, criativa! Qualificações que já fazem parte da minha personalidade. Apenas preciso despertar, pois estava em franca hibernação*. Aprendizado 8: é possível renovar a vida a qualquer momento.
A estrada que percorri até o momento me trouxe aqui. Confesso que fiz muita coisa que não estava com vontade. Prefiro acreditar que era necessário, pois fazia parte da minha evolução pessoal. Ainda é possível que surjam situações que me “obriguem” a tomar decisões que não quero. De qualquer maneira, a escolha será cônscia. Estou inteira.
Seja bem vinda minha nova vida!

*hi.ber.na.ção (lat hibernatione) sf Zool e Bot 1 Ato de hibernar**. 2 Período de repouso prolongado durante o qual certos animais ou parte de certas plantas reduzem suas atividades ao mínimo; nesse período, geralmente no inverno. 3 Sono hibernal. - Dicionário Michaelis
**hi.ber.nar (lat hibernare) vint 1 Zool Passar (um animal) o inverno em sua toca ou caverna, numa espécie de sono, em que há entorpecimento total ou parcial. 2 Bot Passar o inverno em estado de repouso, sem vegetar, como os espórios, gomos e outras partes de certas plantas. Dicionário Michaelis