Por mais que alguns acontecimentos tenham ocorrido há anos, a capacidade que o ser humano possui para recordar determinadas situações é admirável.
Quando meu pai adoeceu e começou a definhar a olhos vistos, todos em casa, também murchamos. Enquanto não descobríamos o quê o estava levando embora, acreditávamos que tudo estava bem e que em breve ele se recuperaria. Muitos exames foram realizados e nenhum acusou a neoplasia no esôfago.
Meu pai era muito na dele. Não reclamava ou se fazia de vítima. Conforme a doença o consumia mais calado ele se mantinha. Com certeza sabia o que lhe estava acontecendo e não queria transtornar a vida das pessoas que amava.
Lembro que nas visitas diárias ao hospital sempre me dizia para continuar minha vida e parar de ir visitá-lo. Eu ficava ensandecida a respeito da segunda parte e brincava dizendo que "esta parte do contrato" eu não cumpriria. Fui ao hospital todos os dias que lá esteve e fazia-lhe massagens nos pés e segurava sua mão por longos momentos. Ambos em silêncio. Ele calado por estar isolado e se despedindo da vida e eu apenas olhando-o e orando para que saísse dali e reagisse logo.
Os dias passavam e ele só piorava. Não ser portadora da cura da doença do meu pai me fazia sentir impotente e inútil e no dia a dia me consumia. Queria encontrar um jeito de mantê-lo comigo. Egoisticamente comigo. Não queria que fosse embora do meu mundo. Nestes momentos, o que não conseguia enxergar era que a doença dele estava totalmente fora dos meus quereres. Nada que eu pudesse fazer ou querer o manteria ao meu lado.
Chegou o dia que antecedeu a morte de papai. Chorei incontrolavelmente. Sem freios. Derramei furiosas lágrimas. Meu coração doía doía doía. Fiquei completamente exausta. Não queria aceitar aquele fado.
Papai sempre foi e é e sempre será meu herói*. Aprendizado 9: é uma honra ter sido digna de co-participar da vida de pessoas que não mais se fazem presentes.
Após horas de tristeza e desespero e sofrimento, caí em mim e me dei conta de que não tinha como reverter àquela situação. Que a morte de papai era iminente. No segundo seguinte a esta constatação senti-me tão em paz. Foi um bálsamo derramado por todo meu ser. Minha alma se aquietou de tal maneira que pude receber a notícia da morte dele, horas depois, com serenidade.
Sempre me lembro de papai. Ele foi uma pessoa que contribuiu significativamente com meu crescimento em todos os sentidos e formas e etapas até onde lhe foi possível estar presente.
* Pai, Fábio Jr.: http://youtu.be/S900uKF_3Lg
Tudo tem um começo e um fim. O incrível dos começos e dos fins está sempre presente no entre. É o entre que estará escrito em BestSeller, the only. Diferente de diário, escolho “livro pessoal” porque permite flexibilidade para escrever conforme minha vivência e sem compromisso com o tempo. (Ah, o Sr. Tempo! Sempre atual.) “BestSeller” é o elixir com o qual quero continuar minha jornada pessoal.
É possível que alguns amigos tenham recebido algumas palavras que escrevo neste espaço. Eles sabem o que receberam de mim.
domingo, abril 17
Chamado à vida!
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